Quando Deus ou qualquer outro PilarAbsoluto morre para um homem, ou em um homem, como se sabe, passa-se ao Abismo, e o Abismo consiste da “consciência racional e afetiva” do fato da mortalidade.
O homem não nasce mortal, torna-se mortal, que Deus não morra para um homem, mesmo assim esse homem passará ao Abismo. De um modo ou de outro, Deus se rasga, e o furo na cúpula celeste, que o homem chama de estrelas, e que o homem já chamou de a luz de Deus a entrar no mundo, o furo na cúpula celeste ganha, mais cedo ou mais tarde, a qualidade de índice de um universo em que cada um está só com sua morte.
Se, para um homem, inexiste o dia em que Deus se rasga, é porque esse homem enlouqueceu, num sentido literal.
E não são poucos os homens que enlouquecem, literalmente e para além das pobres definições dos manuais de diagnóstico.
É claro que o espedaçamento de Deus também é enlouquecedor. Mas são loucuras distintas, a que se apóia no PilarAbsoluto e aquela que se apóia num misto de resignação e desespero diante do fato da mortalidade.
De todo modo se enlouquece, as opções são
ou enlouquecer por conta própria e inventar mundos, talvez compartilháveis, com seu misto de resignação e desespero
ou usar a loucura para dar consistência a um Deus monstruoso que nunca se rasga, ou seja, abraçar para sempre o mundo inventado para que os que não ousam enxergar a fragilidade, o esfarrapamento dos fundamentos do mundo, para que esses tenham um instrumento pronto para minimizar o sol que não cessa de ranger no Abismo.
Não é estritamente de Deus que falo quando uso a palavra Deus. Mas de qualquer, de qualquer coisa que, deificada, ocupe o lugar-Deus, instaurando-se como ponto final das indagações extremas, arquitetadas sobre a indagação extrema: a morte ― a qual metamorfoseamos em enigma, usando ou não Deus para isso (chamando-a, p. ex., de o enigma de Deus),
afinal, para podermos dialogar-jogar-xadrez com a morte, precisamos destituí-la de seu Absoluto, pois diante do Absoluto sequer levantamos os olhos ou a língua.


